Três anos se passaram, e la estava eu, sentada na mesma esquina, do mesmo barzinho, ouvindo as mesma músicas clichês. Os murmúrios eram intensos, escutava as mesma histórias, contadas por pessoas diferentes há anos. Engraçada essa mania de observa-las.
Levantei e fiz o de sempre. Atravessei a rua, coloquei meus fones de ouvido e sentei no ponto de ônibus. No relógio, marcavam mais de 22h00 da noite, certamente demoraria. Até que para minha surpresa, o ônibus veio só para contrariar meus pensamentos e minha mente ocupada de nada.
Me sentei ao lado de uma garotinha que devia ter uma faixa de sei la... Quatorze anos?! Não sei até hoje. Ela olhava pensativa pela janela, e eu com a minha mania irritante de observar pessoas, me peguei lendo seus traços e imaginando o que se passava naquela pequena cabecinha. Então, ela olhou pra mim, e seus olhos grandes e castanhos encontraram os meus, notei que eles estavam pesados, de uma maneira que parecia que ela não dormia longas semanas. As lágrimas grudadas sutilmente em seus cílios, denunciavam que a previsão em seus olhos, foram e seriam de chuva. Tentei me conter e não falar uma palavra, porém seu olhar triste e sombrio fez com que eu me atrevesse a pergunta-la:
- Dia ruim?
- Só um pouco - abaixou a cabeça
- Com o tempo melhora - tentei sorrir
- Melhorou para você?
- Não, mas eu sou a exceção da regra - dei de ombros
- Mas porque? - levantou o olhar curiosa
- Não costumo correr atrás das pessoas.
- Você deveria. A vida é curta, e as pessoas costumam carregar uma bomba relógio dentro de si, podem explodir a qualquer momento - uma lágrima teimava em descer de seus olhos
Parei por um minuto, absorvendo todas aquelas palavras. Então, eu estava recebendo um conselho de uma menina de quatorze anos? Retomei minha fortaleza e resolvi mudar o rumo do assunto.
- Para onde vai sozinha essa hora da noite? - ela acariciou suas próprias pernas
- Minha mãe morreu há três anos - engoliu as tão insistentes lágrimas - E desde então, sabendo do medo que ela tinha pelo o escuro, eu vou até o cemitério e acendo uma luz para ela.
- Você não tem medo?
- Não - pela primeira vez, ela sorriu - Essa é a única maneira que eu tenho de estar um pouco mais perto dela
Sorri junto a ela que levantou um pouco desengonçada e puxou o alarme do ônibus.
- É o seu ponto, ne? - perguntei
- Sim, e obrigada pela conversa
- De nada - sorri abertamente
O ônibus parou, e ela caminhou lentamente até a porta de saída. Até que, paralisou nas escadas, como se estivesse esquecido de algo, e olhou para mim:
- Ei moça, eu não sei para onde você está indo, mas eu espero que você esteja indo para um lugar que te faça feliz.
O meu sorriso foi se transformando em lágrimas, e a única palavra que saiu através de sussurro foi um singelo "Obrigada".


